"Reflexões Pessoais", Nº 44
Talvez você pense que é apenas uma história estranha…
Até perceber que ela fala sobre você.
Existe uma antiga lenda sobre um homem que não podia morrer.
Nenhuma doença o tocava.
Nenhum acidente o alcançava.
O tempo passava por ele como vento sobre pedra.
Mas havia uma condição.
Um caracol o seguia.
Lento.
Silencioso.
Inabalável.
E, no instante em que o tocasse… tudo acabaria.
Então o homem fez a única coisa que parecia sensata:
Correu.
Fugiu durante anos.
Depois décadas.
Depois séculos.
Mudou de nome, de cidade, de continente.
Aprendeu novos idiomas.
Construiu vidas inteiras que precisou abandonar.
Viu pessoas que amava envelhecerem diante dos seus olhos…
e desaparecerem como fotografias esquecidas pelo tempo.
Enquanto ele continuava ali.
Intocado.
Sozinho.
Sempre fugindo.
Sempre olhando para trás.
Até que chegou um momento em que já não existia mais distância suficiente no mundo.
Nenhum horizonte novo.
Nenhum abrigo seguro.
Nenhuma distração capaz de silenciar o inevitável.
Restavam apenas dois seres no universo daquela história:
Ele…
e o caracol.
Pela primeira vez em toda a sua existência, o homem parou.
O medo ainda existia.
Mas o cansaço havia se tornado maior que ele.
Então fez aquilo que evitara por toda a eternidade:
Virou-se.
E estendeu a mão.
Não por coragem.
Não por esperança.
Mas por rendição.
Aceitando o fim.
O caracol o tocou.
E naquele instante…
não foi o homem quem morreu.
Foi o caracol.
Porque o toque nunca foi uma maldição.
Era apenas o destino tentando alcançá-lo.
