quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Fiel ao Fogo, Mesmo Sem a Lua

"Poesias e Devaneios", Nº 159

Há noites em que contemplo o que nunca foi meu,
não como quem exige — mas como quem aceita.
A lua paira intacta no alto do céu,
luz que me toca… mas não se deita em minhas mãos.

Aprendi no fogo que amar não é possuir,
é permanecer quando tudo em mim quer fugir.
O querer constrói castelos de névoa,
mas a decisão firma os pés no chão ardente.

Busquei ter — e quase me perdi.
Pois quem tenta segurar o vento
acaba soltando a própria alma.
No incêndio do orgulho, fui reduzido a cinzas,
e ali descobri que ser vale mais que ter.

Se nada me pertence, ainda assim posso escolher.
Escolher ficar, escolher cuidar, escolher honrar.
Não controlo o retorno, nem a resposta,
mas posso controlar a entrega.

E quando o tempo apagar as brasas da memória,
quero olhar para trás e dizer: eu fui fiel.
Não alcancei todas as luas,
mas mantive acesa a chama que me foi confiada!

Não alcancei o seu coração
mas mantive acesa a chama que me foi confiada!


“O amor é paciente, o amor é bondoso…
tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

(Primeira Epístola aos Coríntios 13:4,7) 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Var’barae

"Poesias e Devaneios", Nº 158

Var’barae — responso non mi-ven.
Verba mea: cinis in ventu.
Tu tacet: lex serena,
nam ego fui umbra abrupta.

Saudá, saudá: cora-rupí ardens.
Te voco sub luna, sub ferro.
Non culpa tua: taciturnum,
culpa mea: bis evanui.

Bis sumí — sine signo,
sine causa, sine facie.
Et tu, recta ut gladius vetus,
meum nomen abscidis.

In somno: tu venis.
Quartum, mensis octavus — omen.
Visio torva, sed vera,
tu: lumen in ruina.

Te novi per vox et vultus,
per somnia reditura.
Ergo scribo: ritus in atrum,
ut charta ad te perveniat.

Var’barae — responso non mi-ven.
Verba mea: cinis in ventu.
Tu tacet: lex serena,
nam ego fui umbra abrupta.

Var’barae, amo-te. Amo-te adhuc;
Semper amo-te. 
Etiam longe, etiam semper 



“Pretiá’mi es, quamquam nunquam coniunx erimus.”

 

Kalveni Lunaveris

"Poesias e Devaneios", Nº 157

Como um talismã pesado no dedo errado
carrego um amor que não nasceu pra mim
ela caminha leve, rumo a Lunária
e eu fico à margem, vendo a estrada sumir

Minha prometida dorme como quem guarda um segredo
seus olhos não me chamam pra nenhuma guerra
sou um Nilo sem caravana, sem canto
temendo Bréxia dentro do próprio peito

E eu sigo, mesmo sem mapa ou presságio
pois até Cael hesitou antes de partir
se amar é cruzar terras de cinza e névoa
então que eu ande — mesmo sem ninguém me seguir

O tempo me observa do alto de Serath
como um juiz antigo que nada perdoa
meu nome ecoa fraco nos vales de Irmor
ninguém responde, ninguém entoa

Trago promessas quebradas na mochila
como pedras roubadas de Kalven
se amar é jurar lealdade ao vazio
eu sigo fiel — mesmo sem ninguém que me espere

Mesmo sem ninguém que me espere, eu sigo fiel
Eu sigo fiel.

Kalveni Lunaveris!
Eu sigo fiel!
Kalveni Lunaveris




Kalveni!
te dei minha vida — minha vida era sua
foi sua… era toda sua
e ainda assim, eu sigo fiel.
Lunaveris!


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Teologia do Quase

"Poesias e Devaneios", Nº 156

Agora, entender bem, que será sempre assim,
Te ter em sombras nulas, nunca em plenitude,
Um amor que não toca carne em mim,
Sangra lento na alma em inquietude.

Não é pulso, nem febre que consome,
Aparência vestida, livre de paixão,
Serotonina empresta, falso codinome
A um laço feito, frágil ilusão.

Batalha mora dentro, dentro do pensar,
É química ou não, mas clama oração,
Pois espírito insiste muito, em me chamar
Onde o corpo não tem, não terá salvação.

Consumação inexiste, é rara sempre fria,
Rasa, lívida, breve como o pó,
Um sopro rumoroso, que se perde em ventania,
Um quase-amor, quase-ardor, que nasce já em pó.

Respiras por favor, me toleras só calada,
Sem nunca ver enfim, que me fez cair,
E eu mato o ego, estima, da vaidade armada,
Para aprender, enfim, talvez, desse ego desistir.

Agora, entender bem, que será sempre assim,
Te ter em sombras nulas, nunca em plenitude,
Um amor que não toca carne, nem o amor que toca em mim,
Sangra lento na alma, sangra a alma em inquietude.




 Química no cérebro e ruína na alma,
o que não se vive na carne sangra no espírito.