sexta-feira, 3 de julho de 2026

Quando o mundo parecia permanente, antes que tudo mudasse

"Reflexões Pessoais", Nº 45

Há algo profundamente simbólico nessa fotografia.

Ela registra três homens que, gostemos ou não de suas decisões, influenciaram diretamente o destino de centenas de milhões de pessoas. Ali estão líderes que passaram décadas representando sistemas políticos rivais, em um momento em que o mundo acreditava ter encontrado um novo equilíbrio após o fim da Guerra Fria. Atrás deles, as Torres Gêmeas dominam o horizonte de Nova York, como um monumento ao poder econômico, à estabilidade e à confiança de uma época.

Naquele instante, tudo parecia sólido.

Mas a história tem uma característica curiosa: ela nunca permanece imóvel.

Os líderes envelheceram, deixaram o poder e, com o tempo, partiram. As torres, que pareciam permanentes, desapareceram em uma manhã de setembro diante dos olhos do mundo. A própria ordem internacional celebrada naquele período também se transformou. O entusiasmo do início dos anos 1990 deu lugar a novos conflitos, novas disputas estratégicas e novos desafios globais.

Essa fotografia acaba lembrando uma verdade frequentemente esquecida pela política.

Governos passam.

Ideologias mudam.

Potências ascendem e declinam.

Símbolos considerados eternos podem desaparecer em questão de horas.

Ao estudar História, é comum enxergarmos presidentes, generais e estadistas como personagens quase míticos. Entretanto, uma imagem como essa devolve a dimensão humana dessas figuras. Eram homens vivendo o seu tempo, convencidos — como quase todos os seres humanos — de que estavam construindo uma ordem relativamente estável. Não podiam prever tudo o que viria depois, assim como nós também não conseguimos prever o que as próximas décadas reservarão ao mundo.

Há também uma lição de humildade histórica.

Cada geração acredita estar vivendo o momento definitivo da civilização. No entanto, para quem vier cinquenta ou cem anos depois, nós também seremos apenas uma fotografia antiga, observada por pessoas que conhecerão acontecimentos que hoje sequer conseguimos imaginar.

A fotografia, portanto, não retrata apenas três líderes diante das Torres Gêmeas. Ela registra um mundo que deixou de existir.

Os homens partiram.

As torres partiram.

A ordem política que parecia consolidada também mudou.

Permanece apenas a fotografia — silenciosa, lembrando que, por maior que seja o poder de um governante, por mais imponente que seja um edifício ou por mais duradoura que pareça uma era histórica, tudo está sujeito à passagem do tempo.

Talvez essa seja uma das maiores lições da História: não a de que tudo acaba, mas a de que nenhuma geração deve confundir o presente com a eternidade. O que hoje parece permanente é, muitas vezes, apenas um capítulo de uma narrativa muito maior, escrita lentamente pelo tempo.


Presidente Reagan e o Secretário-Geral Gorbachev, junto com o
presidente eleito Bush. Ilha dos Governadores, dezembro de 1988.




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