domingo, 22 de fevereiro de 2026

Iracema

"Poesias e Devaneios", Nº 160

Iracema, sombra e clarão,
Filha da mata, do vento e do chão,
Trazia no olhar a esperança secreta,
Mesmo que a alma fosse inquieta.

Verde da selva. À beira do rio.
Canto brando. Fundo e sombrio.
Sonhava com mundos além do luar,
Que o tempo ainda iria revelar.

Anos antigos, no mar peregrino,
Chegou Francisco, pobre e franzino,
Sem ouro, sem glória, sem nome a ostentar,
Com um coração pronto a amar.

Seus olhos se acharam na luz da manhã,
Flecha certeira lançada em Tupã,
Nasceu um amor sem medo pela maré,
Mais forte que o ódio bradado sem fé.

Veio proibição, como açoite cruel,
Separando os dois sob um negro véu,
A tribo bradou contra essa união,
Chamando de afronta aquela paixão.

Iracema chorou à beira do mar,
Sentindo o destino se desmanchar,
Seu sonho, ferido por mãos alheias,
Virou tempestade nas próprias veias.

Sem ele, a vida perdeu o calor,
A mata silenciou, toda sua dor,
A lua a viu tombar, fria utopia,
Levando no peito a última agonia.

Francisco, sozinho na sua solidão,
Guardou nos braços a recordação,
Beijou seus cabelos como adeus final,
Promessa quebrada pelo mundo brutal.

Fez de uma canoa seu frágil destino,
Cortou as águas num gesto divino,
Levando no peito a dor como guia,
Sem rota, sem porto, sem companhia.

E dizem que o mar, profundo e imenso,
Guardou seu lamento no vento suspenso,
E nunca mais houve, sinal ou visão
Do pobre Francisco, e sua paixão.




Ela ficou na terra.
Ele seguiu para o mar.
O resto virou lenda.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Delegado Fleury

"Reflexões Pessoais", Nº 43

Durante os anos mais duros e repressivos do Governo Militar no Brasil, uma parte significativa da sociedade brasileira vivia sob um sentimento constante de medo: medo do “perigo comunista” (real ou não, mas arrisco a dizer que era sim REAL), da instabilidade política, da violência urbana crescente, principalmente de grupos terroristas, e do que era apresentado oficialmente como ameaça à "ordem nacional". Nesse contexto, figuras como o Delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury passaram a ser vistas por determinados setores como símbolos de firmeza e autoridade. Algo necessário absolutamente.

Para uma parcela da população — especialmente setores conservadores, empresariais e parte da classe média urbana — Fleury representava o homem que “não hesitava”. Ele encarnava a ideia de que, em tempos excepcionais, seriam necessárias medidas excepcionais. A narrativa dominante em certos círculos era a de que o país estava em guerra interna contra subversivos e que a preservação da ordem justificava métodos duros. Duros porém absolutamente necessários.

Parte da imprensa alinhada ao regime, em discursos oficiais, e também conversas de bastidores reforçavam essa imagem: a do delegado incansável, combativo, alguém disposto a fazer o que outros não fariam. Para quem via o período como um confronto ideológico extremo, ele aparecia como um guardião da estabilidade, alguém que impedia o “caos”.

Esse tipo de percepção não surgia no vazio. Ela era alimentada por um contexto de polarização intensa, por propagandas estatais e por um ambiente em que informações eram controladas. Muitos que apoiavam figuras como Fleury não tinham acesso — ou optavam por não confrontar — as denúncias de abusos, prisões arbitrárias e torturas que circulavam de forma limitada ou clandestina.

É importante entender que essa visão coexistia com outra radicalmente oposta: para perseguidos políticos, familiares de vítimas e setores da oposição, Fleury simbolizava justamente o lado mais sombrio do regime. Muito embora essa parte mais "oposta" fazia justamente tudo aquilo que batia com a narrativa oficial do regime: ações terroristas e violentas da extrema-esquerda.

Analisar como parte da sociedade o enxergava como “defensor da ordem” ajuda a compreender não só o período histórico, mas também como regimes autoritários constroem legitimidade. Em momentos de medo coletivo, figuras associadas à força e à repressão frequentemente são interpretadas como necessárias — às vezes até heroicas — por aqueles que priorizam estabilidade acima de tudo.

Essa tensão entre “ordem” e “direitos” é um dos grandes dilemas que atravessam a história política do século XX — e continua sendo debatida até hoje. 

Nem sempre os "vilões" da vida real são vilões de fato, pois todo personagem real e humano possui uma profundidade.



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Fiel ao Fogo, Mesmo Sem a Lua

"Poesias e Devaneios", Nº 159

Há noites em que contemplo o que nunca foi meu,
não como quem exige — mas como quem aceita.
A lua paira intacta no alto do céu,
luz que me toca… mas não se deita em minhas mãos.

Aprendi no fogo que amar não é possuir,
é permanecer quando tudo em mim quer fugir.
O querer constrói castelos de névoa,
mas a decisão firma os pés no chão ardente.

Busquei ter — e quase me perdi.
Pois quem tenta segurar o vento
acaba soltando a própria alma.
No incêndio do orgulho, fui reduzido a cinzas,
e ali descobri que ser vale mais que ter.

Se nada me pertence, ainda assim posso escolher.
Escolher ficar, escolher cuidar, escolher honrar.
Não controlo o retorno, nem a resposta,
mas posso controlar a entrega.

E quando o tempo apagar as brasas da memória,
quero olhar para trás e dizer: eu fui fiel.
Não alcancei todas as luas,
mas mantive acesa a chama que me foi confiada!

Não alcancei o seu coração
mas mantive acesa a chama que me foi confiada!


“O amor é paciente, o amor é bondoso…
tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

(Primeira Epístola aos Coríntios 13:4,7) 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Var’barae

"Poesias e Devaneios", Nº 158

Var’barae — responso non mi-ven.
Verba mea: cinis in ventu.
Tu tacet: lex serena,
nam ego fui umbra abrupta.

Saudá, saudá: cora-rupí ardens.
Te voco sub luna, sub ferro.
Non culpa tua: taciturnum,
culpa mea: bis evanui.

Bis sumí — sine signo,
sine causa, sine facie.
Et tu, recta ut gladius vetus,
meum nomen abscidis.

In somno: tu venis.
Quartum, mensis octavus — omen.
Visio torva, sed vera,
tu: lumen in ruina.

Te novi per vox et vultus,
per somnia reditura.
Ergo scribo: ritus in atrum,
ut charta ad te perveniat.

Var’barae — responso non mi-ven.
Verba mea: cinis in ventu.
Tu tacet: lex serena,
nam ego fui umbra abrupta.

Var’barae, amo-te. Amo-te adhuc;
Semper amo-te. 
Etiam longe, etiam semper 



“Pretiá’mi es, quamquam nunquam coniunx erimus.”

 

Kalveni Lunaveris

"Poesias e Devaneios", Nº 157

Como um talismã pesado no dedo errado
carrego um amor que não nasceu pra mim
ela caminha leve, rumo a Lunária
e eu fico à margem, vendo a estrada sumir

Minha prometida dorme como quem guarda um segredo
seus olhos não me chamam pra nenhuma guerra
sou um Nilo sem caravana, sem canto
temendo Bréxia dentro do próprio peito

E eu sigo, mesmo sem mapa ou presságio
pois até Cael hesitou antes de partir
se amar é cruzar terras de cinza e névoa
então que eu ande — mesmo sem ninguém me seguir

O tempo me observa do alto de Serath
como um juiz antigo que nada perdoa
meu nome ecoa fraco nos vales de Irmor
ninguém responde, ninguém entoa

Trago promessas quebradas na mochila
como pedras roubadas de Kalven
se amar é jurar lealdade ao vazio
eu sigo fiel — mesmo sem ninguém que me espere

Mesmo sem ninguém que me espere, eu sigo fiel
Eu sigo fiel.

Kalveni Lunaveris!
Eu sigo fiel!
Kalveni Lunaveris




Kalveni!
te dei minha vida — minha vida era sua
foi sua… era toda sua
e ainda assim, eu sigo fiel.
Lunaveris!