quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Delegado Fleury

"Reflexões Pessoais", Nº 43

Durante os anos mais duros e repressivos do Governo Militar no Brasil, uma parte significativa da sociedade brasileira vivia sob um sentimento constante de medo: medo do “perigo comunista” (real ou não, mas arrisco a dizer que era sim REAL), da instabilidade política, da violência urbana crescente, principalmente de grupos terroristas, e do que era apresentado oficialmente como ameaça à "ordem nacional". Nesse contexto, figuras como o Delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury passaram a ser vistas por determinados setores como símbolos de firmeza e autoridade. Algo necessário absolutamente.

Para uma parcela da população — especialmente setores conservadores, empresariais e parte da classe média urbana — Fleury representava o homem que “não hesitava”. Ele encarnava a ideia de que, em tempos excepcionais, seriam necessárias medidas excepcionais. A narrativa dominante em certos círculos era a de que o país estava em guerra interna contra subversivos e que a preservação da ordem justificava métodos duros. Duros porém absolutamente necessários.

Parte da imprensa alinhada ao regime, em discursos oficiais, e também conversas de bastidores reforçavam essa imagem: a do delegado incansável, combativo, alguém disposto a fazer o que outros não fariam. Para quem via o período como um confronto ideológico extremo, ele aparecia como um guardião da estabilidade, alguém que impedia o “caos”.

Esse tipo de percepção não surgia no vazio. Ela era alimentada por um contexto de polarização intensa, por propagandas estatais e por um ambiente em que informações eram controladas. Muitos que apoiavam figuras como Fleury não tinham acesso — ou optavam por não confrontar — as denúncias de abusos, prisões arbitrárias e torturas que circulavam de forma limitada ou clandestina.

É importante entender que essa visão coexistia com outra radicalmente oposta: para perseguidos políticos, familiares de vítimas e setores da oposição, Fleury simbolizava justamente o lado mais sombrio do regime. Muito embora essa parte mais "oposta" fazia justamente tudo aquilo que batia com a narrativa oficial do regime: ações terroristas e violentas da extrema-esquerda.

Analisar como parte da sociedade o enxergava como “defensor da ordem” ajuda a compreender não só o período histórico, mas também como regimes autoritários constroem legitimidade. Em momentos de medo coletivo, figuras associadas à força e à repressão frequentemente são interpretadas como necessárias — às vezes até heroicas — por aqueles que priorizam estabilidade acima de tudo.

Essa tensão entre “ordem” e “direitos” é um dos grandes dilemas que atravessam a história política do século XX — e continua sendo debatida até hoje. 

Nem sempre os "vilões" da vida real são vilões de fato, pois todo personagem real e humano possui uma profundidade.



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