terça-feira, 3 de março de 2020

O Soneto 71 e a Auto Reflexão

"Poesias e Devaneios", Nº 53


Quando eu morrer não chores mais por mim
Do que hás de ouvir triste sino a dobrar
Dizendo ao mundo que eu fugi enfim
Do mundo vil pra com os vermes morar.
E nem relembres, se estes versos leres,
A mão que os escreveu, pois te amo tanto
Que prefiro ver de mim te esqueceres
Do que o lembrar-me te levar ao pranto.
Se leres estas linhas, eu proclamo,
Quando eu, talvez, ao pó tenha voltado,
Nem tentes relembrar como me chamo:
Que fique o amor, como a vida, acabado.
Para que o sábio, olhando a tua dor,
Do amor não ria, depois que eu me for.

W. Shakespeare

Shakespeare sempre escreve sobre a angústia do tempo, que numa só direção se segue. O tempo vai nos matando aos pouco, e muitas vezes nos tornando versões piores de nós mesmos, o que nos faz eventualmente nos tornar naquilo que mais odiamos, aí é quando não nos reconhecemos mais no espelho.


domingo, 1 de março de 2020

Carta: "Joguei aqui na sua janela"

"Cartas Perdidas", Nº 32


Cajamar, 25 de Fevereiro de 1990

Vim aqui e joguei essa carta na sua casa...e vim aqui hoje para a gente resolver de uma vez nossa situação, pois não consigo seguir adiante, e por mais que eu tente, no fundo tenho esperanças....

Como você nunca veio quando eu chamei, nunca atendeu minhas ligações, sendo que custa caro fichas telefônicas, eu resolvi vir pessoalmente, e não te achei aqui, e nem tinha certeza real que iria te encontrar, deixei essa carta.

Assim como você mesmo disse, o que a gente coloca no papel requer sentimentos, e é por isso que alimento esperança, porque suas palavras me fizeram pensar assim.

O mais incrível disso e que é a primeira vez que escrevo para alguém, queria poder te dizer pessoalmente esses meus sentimentos turvos, queria que me ouvisse dizendo verbalmente essas palavras, mas como não estou presente eu te peço que só imagine, e imagine eu dizendo o que você significa pra mim, pessoa única e diferente de qualquer outra que conheci.
E não precisou de muita coisa para você me conquistar, porém foi e é ainda muito forte, e acabei colocando você no mais profundo cofre dentro do meu coração.

Espero sua resposta

"Particularmente isso me marcou"

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Pálido Ponto Azul

"Poesias e Devaneios", Nº 52


É aqui, é a nossa casa, somos nós. 

Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. 

O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada “superestrela”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali.

Em um grão de pó suspenso num raio de sol.

A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.

As nossas posturas, a nossa suposta auto importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.

A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, sim. Assentar-se, ainda não. Gostemos ou não, a Terra é onde temos de ficar por enquanto.


Já foi dito que astronomia é uma experiência de humildade e criadora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais amáveis uns com os outros, e para preservarmos e protegermos o “pálido ponto azul”, o único lar que conhecemos até hoje.

Carl Sagan

"O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca."

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Cinza neutro

"Curtas", Nº 39


Não importa o que és, mas o que irá te tornar
Não importa onde estás, mas onde tentará chegar
Nem importa o que tens, mas o que poderá mostrar
Liberta do que te pesas e talvez assim conseguirá

Dos teus feitos mais sublimes
Inúteis, não vão te transformar
Se apoiar no inexplicável
Nada vai se revelar

Das falhas tentativas humanas
Quase ínfimos são os caminhos a trilhar
Mistério obscuro e verdade inalcançável
No fim prevalecerá

Supremacia da razão, busca exata da realidade
Breve sensação de triunfo, perfeita mediocridade
Absurdo sobrenatural diante de tão falha mortalidade
Superar breve existência para conquistar a eternidade


"A carne é cinza, a alma é chama."
Victor Hugo

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Carta: "Te espero nessa mesma estação"

"Cartas Perdidas", Nº 31


São Paulo, 13 de Agosto de 2010


Sabe, é estranho, e que sexta-feira estranha alias! Como era de se imaginar alias!

Muito estranho saber que essa carta nunca será lida por você, eu acho que não.

Nunca mesmo, jamais. E não mesmo pra falar a verdade.

Mas vai ser lida por mim, pois primeiramente sou eu o autor dela, e de forma reiterada, eu vou relê-la diversas vezes no decorrer dos anos.

Muitas vezes reclamamos de nossas perfídias mútuas, a gente passou a vida toda reclamando de coisas imbecis ou de fatos imbecis. A gente perdeu tanto tempo!

A gente perdia tempo discutindo o "sexo dos anjos", quase que literalmente nessa merda de ditado popular. A gente perdia muito tempo pra definir quem errou mais em um término longo de namoro que durou cerca de dois anos, mas na prática não acabou! Não tinha acabado!

Toda vez que a gente se explodia em ódio, nossos cachorros eram nosso escape, eu conversava com o seu e desabafava como você era injusta, conversava com ele, acho que ele entendia... e eu tenho certeza que você ia as vezes lá em casa conversar com o meu, pois muitas vezes quando eu olhava ele, ele me emitia um olhar de censura, você o fez por inteiro... a vantagem é que eu fazia o mesmo com o seu cachorro, e você deve muito ter sentido o olhar intimidador de um rottweiler bem convencido! Morro de rir quando lembro disso!

Morro de rir quando a gente tinha mania de fazer amor em lugares imbecis... lembra quando eu fui te buscar na lanchonete que você trabalhava? Acho que foi em 1997, por volta disso mesmo, não tinha ninguém mais, você fechou tudo, e mandamos ver lá no fundo, como éramos doidos!

A gente podia ter se envolvido cada vez mais, formar uma família! Podíamos mesmo ter feito algo muito maior do que tínhamos feito desde 1995, que era um namoro imbecil, que eu quis manter como namoro imbecil, porque eu era de fato um imbecil.

Eu perdi tempo fazendo as minhas coisas, eu tinha que lavar meu carro, tinha que arrumar minhas varas de pescar, tinha que organizar minhas ferramentas a garagem, tinha que fazer uma série de tarefas inventadas na minha cabeça, tudo isso pra não ter que ser, como eu dizia, um "escravo" seu... 

Hoje eu sou "escravo" de algo muito pior, sou escravo da solidão e da saudade, sou escravo do remorso!

Remorso de não ter te feito mais feliz ainda e sido melhor com você, a cada momento, remorso de ter te curtido a cada momento que nos restava!

Mas, depois de dez anos, eu acho, sei que não sou culpado, e nunca seria, isso se daria de qualquer forma, o câncer simplesmente surgiu como uma sombra e te levou de mim, como um trem que você entrou e eu fiquei na estação!

E sei que jamais você vai ler essa carta!

Mas te espero nessa mesma estação de sempre!

"E se a lembrança insistir em ficar nos procurando... será impossível, mentir o fato que eu não te amo ainda..."


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Violência gera mais violência?

"Curtas", Nº 38


Frase mais genérica, impossível.

Na verdade, para impedir a violência você deve usar de violência, tanto em situações banais ou até em grandes cenários (como numa guerra, por exemplo, afinal tiveram que enviar milhões de soldados para pôr fim aos delírios de Hitler).

A paz só vale quando se está no meio dos pacíficos e justos.

"As vezes a violência é um sopro que acende as brasas do respeito."


"Existem três tipos de pessoas neste mundo: ovelhas, lobos e cães pastores. Algumas pessoas 
preferem acreditar que o mal não existe no mundo, e se algum dia o mal bate-lhes à porta, eles não saberiam como se proteger. 
Essas são as ovelhas. Então você tem predadores, que usam a violência para se alimentar dos mais fracos. 
Eles são os lobos. E depois há aqueles abençoados com o dom da agressão, uma necessidade incontrolável de proteger 
o rebanho. Estes homens são a raça rara que vivem para confrontar o lobo. Eles são os cães pastores."

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

A última fotografia de Dom Pedro II

"Curtas", Nº 37



Nessa foto, ele sente tristeza. Tristeza é a emoção que se sente quando algo que fazia sentido para nós deixa de fazê-lo; é quando as coisas perdem o sentido que costumavam ter.

É por isso que não se pode partir de algum lugar sem sentir tristeza. Como escreveu um grande poeta uma vez,

"Como poderei partir em paz e sem mágoa? Não, não vou sair da cidade com uma ferida no espírito."

Muitos foram os dias de dor que passei dentro das suas muralhas, e muitas foram as noites de solidão; e quem pode separar-se da dor e da solidão sem mágoa?




O ultimo (ou único) verdadeira estadista que jamais tivemos...

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Oasis dos Vencedores

"Curtas", Nº 36



Ai daqueles que sonham, ai dos vencidos! 

A vida é prática, metódica e decisiva...

As mãos do relógio e do tempo nunca param...

Deixe os outros falarem...

Que pregam o bem, a igualdade, a vida boa...

Não é o seu esforço que endireitará o mundo.

Seja sempre mesquinho, orientado e entendido.

Tudo o mais é uma canção...

A vida é apenas uma e mesmo sem querer nos traz à mente a verdadeira frase...

Eu tenho apenas uma vida, não estou à espera da felicidade universal!



"Só nos seus sonhos o homem é realmente livre, é assim e sempre vai ser. "




quinta-feira, 16 de maio de 2019

Carta: "Reveses e Vingança"

"Cartas Perdidas", Nº 30


Extrema/MG, 17 de Maio de 2001

Ainda pensando, mas vou desabar aqui nesse papel, porque papel aceita tudo. Você fez o certo, e o fato de me passar para trás é só parte do que foi a princípio doloroso mas depois correto.

Você se vingou e satisfez sua alma. Satisfez o que tinha que ser satisfeito. Um ego, talvez ferido e talvez inflado. Aquele amor que eu falei, ele existia, era real em mim, eu sonhava com você todo dia quase, você fazia uma presença constante em meus sonhos. Queria você e queria continuar uma coisa que a gente tinha e queria continuar com todas as forças.

Daí surge uma questão mais estranha ainda: “com quem eu sonhava?".

Achava que era você, mas factualmente tem coisa para se analisar. Nunca foi.
Você deixou de existir assim eu segui em frente. A partir daquele momento você passou a não mais existir. Evaporou como a água em uma toalha molhada.

“Você” é a figura de linguagem necessária para mostrar que sim, você não é “você”.
Não adianta o santo e a missa que fosse, você nunca ia ser AQUELA que eu conheci. É outra, apesar de negar. Você mudou.

Vai negar, e negar, e negar, e negar até a morte. E continuar negando que nossas aventuras imbecis foram proveitosas. Talvez nem foram mesmo.

Mas sim, é assim a vida, a gente as vezes sofre reveses tão fortes que a gente morre, quase que literalmente. Depois a gente renasce, porque nosso corpo é resiliente como pedra, e depois a gente percebe que nem é a mesma pessoa.

Você fez o que era exatamente o que EU iria fazer se eu tivesse no seu lugar.

Quanto o que eu sentia, esse sentimento existia, era real, e precisou ser colocado a prova, para ser destruído, como o meu ego, o qual também foi destruído, como um processo, isso é importante para o ser humano, e a psicologia Jungiana sempre prega isso. Tem suas bases.

E de fato era isso que eu amava esse tempo todo, uma sombra.... Aprendi a amar alguém que perdoaria até mesmo eu amar uma sombra, isso é a maior prova de amor, o perdão, e vai ser assim. Isso foi prova. Mas amar é um preço e o preço que se paga é aceitar, e renunciar, e por isso mesmo fui embora definitivamente, e estou mandando essa carta o ultimo dia que ficarei nessa cidade.

Eu agradeço você e também a Deus por você NÃO ter vindo, isso seria o maior erro, tanto para você quanto para mim. Você iria amar um passado e eu iria amar uma sombra. E eu iria ficar tão preso nisso que seria como uma verdadeira prisão.

E hoje aprendi a amar uma terceira pessoa, que nem existe ainda, mas está a caminho.

"Tudo tem um preço. Seu amor teve um, mas seu ódio é caro demais, e você iria amar um passado e eu iria amar uma sombra."






segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Porta Retrato Descartado

"Poesias e Devaneios", Nº 51


Aonde o sol se deitava, naquele lugar, no meio do nada.

Eu corri tudo, meus pertences, e os móveis, não sabia de nada mais.

Vi fotos suas, haviam tantas, elas haviam ficado lá, como tudo. Ficou

Ficou. E não ficaram mais.

Joguei tudo fora.

O maior era eu e você.

Era grande.

Foi.

"Eu gostava de você, e gostava de ficar com você..."


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Quero pra mim

"Poesias e Devaneios", Nº 50


Cada soma
Cada percurso.
Cada gota

Somos isso
Somos algo
Somos sombra

Fui eu, e você
Fui desejo
Fui sentimento

Quero mudar
Quero saber
Quero negociar

Quero você
Quero
Você
Quero


Eu quero ter você para mim, só para mim, todos os dias o dia todo. Quero você perto de mim a todo instante, apertar você no meu abraço para nunca mais largar.








sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Epifania

"Poesias e Devaneios", Nº 49



Sonhei.

E foi lá que eu encontrei.
Tudo que precisava.
O amor perfeito, da alma ao corpo
Do som do vento.
O lugar mais belo.
Campos verdes e cachoeira.
Cheiro doce.
Cabelos soltos, grandes compridos.
O passado nostálgico e grande futuro.
Era ela e alguém que existe.
Mas não existe por que insiste.
Assim foi eu, o herói do tempo.
Fui vencedor, senti a satisfação.
Orgasmo da vitória. Proficiência da vida.
Amores vencidos e vitórias ganhadas.
Uma árvore, uma sombra, uma vista.
Você, eu, quem?
Quem é você? Quem fui eu?
Onde foi isso? Como voltar?
Tudo perfeito e sincronizado
Encontrei. Venci.
Tudo.

Sonhei.

"Você é mais especial do que um diamante que brilha no sol e do que o ouro embaixo do oceano."


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A falácia dos melhores anos, ou "Na minha época era bem melhor"

"Reflexões Pessoais", Nº 30



Em numerosos contextos e discursos um recurso falacioso vem sendo utilizado: o postulado de que “os anos 70/80/90/2000 eram melhores que atualmente”.
Tão profundo quanto uma poça d’água.

Se trata apenas de uma nostalgia, que em nada apresenta fatos que corrobore com tais afirmações. Se eu tivesse perguntado ao meu avô (caso vivo estivesse), ele diria que os melhores anos foram os 50. Perguntando aos meu pais, dirão os 70/80. Eu achava os 90. Meus filhos, caso vierem a existir em médio prazo, certamente considerarão os anos 2020 ou 2030 melhores.

Podemos perceber que sempre existe um padrão em tais falácias. Normalmente as melhores décadas sãos as que o interlocutor tinha entre 16 a 25 anos, mesmo que naquela época ele não pensasse assim. Você tem 25 anos, provavelmente quando tiver seus 40 ou 50 dirá aos seus filhos e netos que época boa era a de 2018! 

Mas não se preocupe! Quase todos temos essa visão, pois a melhor época de nossas vidas é quando temos menos problemas, quando somos mais idealistas e menos realistas. Um exemplo: hoje em dia você pode receber um salário 10 vezes maior do que ganhara quando tinha seus 17 anos, mas aos 17 pode ter sido sua melhor época. Posso ganhar na loteria e ficar milionário aos 40. Mas mesmo assim, para meus netos direi: "Oh! Época boa era os anos 90".

Só que basta uma análise fria pra toda essa fantasia desmoronar: Nos anos 50/60 garotas de 12 anos se casavam. Garotos de 12 tinham que cortar lenha e carregar baldes d’água na cabeça pra tomar banho. Não existia erotização das crianças, não mesmo: o que existia era procriação. Nossas avós eram mães com 13, 14 anos (era outra época). Como pode nossas avós virem e dizerem que “as crianças de hoje estão perdidas?” 

Concordo que a educação atual enviesou tão violentamente para um espectro ideológico específico que hoje as escolas não passam de fábricas de analfabetos. Antigamente os analfabetos eram feitos em casa, sem gastar recurso algum dos impostos. Sendo assim, piorou.

Mas não podemos e nem devemos generalizar. Senão fosse as escolas, mesmo com seu péssimo ensino, muitos aqui estariam plantando milho sem sequer saber assinar o próprio nome. A educação é ruim? É. Mas é bem melhor do que a dos anos 70.
Eu não acho que nossos adolescentes estão piores do que os dos anos 90. Contudo agora com essa era de informações instantâneas, acabamos tendo mais conhecimento das tolices e ingenuidades desta geração de modo instantâneo. 

Eu nos meus 11 anos matava passarinho com um estilingue, e hoje, não vejo uma criança da mesma idade fazendo algo assim. As besteiras que fazem mudaram, mas são as mesmas besteiras e traquinagens que toda criança fez em toda a história.
Na minha época brincava-se de “salada mista”. Então quando vejo um pré-adolescente dizendo que quer “dar uns pega” na amiguinha, não consigo ver diferença alguma. Hoje em dia essa galera tem acesso a sites pornográficos no conforto de suas mãos (literalmente) não vejo diferença alguma quando em meus 12-13 anos juntava com os amigos da mesma idade pra fazer vaquinha e pedir um maior pra alugar um daqueles “VHS proibidos”. Tão pueril quanto natural essa curiosidade de moleque.

Outra falácia é que os antigos viviam de forma mais saudáveis do que hoje em dia, que se come tudo industrializado. Basta analisar a expectativa de vida das pessoas, que só aumenta a cada geração. Isso sem falar da altura física, que também está aumentando.

As pessoas das antigas viviam pouco, no máximo chegavam aos 60 anos, e hoje a pessoa com 60 está como se tivesse aos 45 ou 50. Só reparar que o presidente eleito Jair Bolsonaro já é um “sessentão”, se recuperou de uma facada, e está aí firme, forte. Dizem que a média atual hoje é de 70 a 75 anos, mas eu mesmo vejo essa média até mais alta, a expectativa média de vida humana hoje já pode ser considerada entre 80 e 85 anos. E isso como o passar das gerações e dos avanços tecnológicos na saúde só tende a aumentar. 

Daqui algumas gerações, será comum convivermos com gente centenária. Eu mesmo acredito que chegarei lá.

 Tudo é cíclico, e de certa forma vivenciamos muitas coisas que foram vivenciadas há mais de duas décadas. Ainda continuo tendo enorme carinho pelos anos 90, mas sempre vigilante quanto a torpe lente da nostalgia.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Carta: "Embora isso não diga nada."

"Cartas Perdidas", Nº 29


Porto União/SC, 27 de Maio de 1998

Embora isso não diga nada, você nunca foi substituída!

Isso é fato, mas isso não diminui a magoa que existe entre nos e foi difícil de a gente poder digerir. A questão é que você sempre achou e pensou muitas coisas, factoides, a principal delas é um conto que “eu te substituí", mas isso não e verdade, e vou explicar.

Você e uma pessoa bastante complicada e cheio de ideias conspiracionistas, mas a questão é que eu nunca fiz jus a toda essa paranoia maluca!

Eu te odiei demais, e ainda te odeio, por todos esses boatos. Eu te magoei, mas você também me magoou de uma forma inversamente proporcional. Nenhum ódio foi gratuito, eu te odiei da mesma forma que te amei.

Então você acha que eu me reconstruí, e existe outra pessoa na minha vida, que eu já tenho filhos, e que minha vida se refez... E de fato não há. Nunca houve!

Você é algo que não é você mas algo da minha cabeça. Representa meus medos e desejos. Você não é você nos meus sonhos, é uma imagem que eu projeto.

Eu nunca te substituí! Seu lugar ainda está aqui, nunca deixará de ser seu!

Embora isso não diga nada.

"Talvez bastasse respirar
Só respirar um pouco
Até recuperar cada batimento
E não procurar o momento
De ir embora"