"Poesias e Devaneios", Nº 160
Iracema, sombra e clarão,
Filha da mata, do vento e do chão,
Trazia no olhar a esperança secreta,
Mesmo que a alma fosse inquieta.
Verde da selva. À beira do rio.
Canto brando. Fundo e sombrio.
Sonhava com mundos além do luar,
Que o tempo ainda iria revelar.
Anos antigos, no mar peregrino,
Chegou Francisco, pobre e franzino,
Sem ouro, sem glória, sem nome a ostentar,
Com um coração pronto a amar.
Seus olhos se acharam na luz da manhã,
Flecha certeira lançada em Tupã,
Nasceu um amor sem medo pela maré,
Mais forte que o ódio bradado sem fé.
Veio proibição, como açoite cruel,
Separando os dois sob um negro véu,
A tribo bradou contra essa união,
Chamando de afronta aquela paixão.
Iracema chorou à beira do mar,
Sentindo o destino se desmanchar,
Seu sonho, ferido por mãos alheias,
Virou tempestade nas próprias veias.
Sem ele, a vida perdeu o calor,
A mata silenciou, toda sua dor,
A lua a viu tombar, fria utopia,
Levando no peito a última agonia.
Francisco, sozinho na sua solidão,
Guardou nos braços a recordação,
Beijou seus cabelos como adeus final,
Promessa quebrada pelo mundo brutal.
Fez de uma canoa seu frágil destino,
Cortou as águas num gesto divino,
Levando no peito a dor como guia,
Sem rota, sem porto, sem companhia.
E dizem que o mar, profundo e imenso,
Guardou seu lamento no vento suspenso,
E nunca mais houve, sinal ou visão
Do pobre Francisco, e sua paixão.

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