domingo, 22 de fevereiro de 2026

Iracema

"Poesias e Devaneios", Nº 160

Iracema, sombra e clarão,
Filha da mata, do vento e do chão,
Trazia no olhar a esperança secreta,
Mesmo que a alma fosse inquieta.

Verde da selva. À beira do rio.
Canto brando. Fundo e sombrio.
Sonhava com mundos além do luar,
Que o tempo ainda iria revelar.

Anos antigos, no mar peregrino,
Chegou Francisco, pobre e franzino,
Sem ouro, sem glória, sem nome a ostentar,
Com um coração pronto a amar.

Seus olhos se acharam na luz da manhã,
Flecha certeira lançada em Tupã,
Nasceu um amor sem medo pela maré,
Mais forte que o ódio bradado sem fé.

Veio proibição, como açoite cruel,
Separando os dois sob um negro véu,
A tribo bradou contra essa união,
Chamando de afronta aquela paixão.

Iracema chorou à beira do mar,
Sentindo o destino se desmanchar,
Seu sonho, ferido por mãos alheias,
Virou tempestade nas próprias veias.

Sem ele, a vida perdeu o calor,
A mata silenciou, toda sua dor,
A lua a viu tombar, fria utopia,
Levando no peito a última agonia.

Francisco, sozinho na sua solidão,
Guardou nos braços a recordação,
Beijou seus cabelos como adeus final,
Promessa quebrada pelo mundo brutal.

Fez de uma canoa seu frágil destino,
Cortou as águas num gesto divino,
Levando no peito a dor como guia,
Sem rota, sem porto, sem companhia.

E dizem que o mar, profundo e imenso,
Guardou seu lamento no vento suspenso,
E nunca mais houve, sinal ou visão
Do pobre Francisco, e sua paixão.




Ela ficou na terra.
Ele seguiu para o mar.
O resto virou lenda.

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